7 de nov de 2010

O imprevisível na arte

Ferreira Gullar
    TALVEZ A nossa visão da expressão artística se enriqueça se tentarmos mudar a maneira usual de entendê-la. Não há dúvida de que uma compreensão cabal desse fenômeno é quase impossível.
    Digo isso porque tendo a achar que não há respostas definitivas para os problemas e, particularmente, quando se trata de matéria tão complexa e ambígua quanto a arte.
Estou convencido de que a obra de arte é resultado de um processo, que tem como fator consubstancial a imprevisibilidade. Isso se tornou mais evidente na época moderna, quando a expressão artística se libertou das normas que surgiram, séculos antes, nas academias de arte.
Uma série de fatores levara ao estabelecimento de regras e princípios a que os artistas deveriam obedecer; regras essas que nasceram da convicção de que a função das artes plásticas era representar a figura humana.
    Uma coisa condicionou a outra: se a arte alcançaria sua mais alta expressão representando o corpo humano, era, então, obrigatório estudá-lo objetivamente e buscar, com rigor científico, copiar cada detalhe que o constitui.
    E assim surgiu um verdadeiro código capaz de orientar o artista na captação fiel das particularidades do corpo humano. Normas e proporções preestabelecidas possibilitaram conceber a figura humana ideal, representada conforme relações e harmonia que não se encontram em nenhum corpo humano real. Por essa razão, a realização artística tornou-se previsível, ou seja, um procedimento regido de antemão por regras conhecidas.
    Se é verdade que o grande artista nunca se submeteu integralmente a tais regras, não resta dúvida de que, quando elas foram abandonadas, o trabalho artístico sofreu uma mudança fundamental: o imprevisível tornou-se um fator essencial da criação artística.
    O início se dá no cubismo analítico, quando a representação figurativa é substituída pela construção arbitrária da forma dos objetos. Agrava-se com o abandono dos processos propriamente pictóricos, substituídos pelo uso de papel colado à tela, arame, areia, barbante. Se o artista não tem qualquer compromisso com a imitação das figuras, que fatores passam a reger a realização da obra?
    Do meu ponto de vista, com o cubismo, a pintura, que antes nascia das formas naturais, passou a nascer, na tela, da imaginação do pintor. "Cézanne, de uma garrafa fazia um cilindro; eu, de um cilindro, faço uma garrafa", afirmava o cubista Juan Gris (1887-1927). Essa autonomia da linguagem levou a uma exacerbação que ultrapassou os limites: tudo o que se punha na tela virava expressão estética, fosse papel, barbante ou areia.
    Em contrapartida a esse tipo de construção arbitrária, surgiu a arte geométrico-construtiva, inicialmente com o neoplasticismo de Piet Mondrian (1872-1944). Regida por linhas verticais e horizontais, limitava a composição a quadrados e retângulos em cores primárias, que se repetem de um quadro para o outro.
    O grau de imprevisibilidade foi reduzido, mas não eliminado, mesmo porque não era esse o propósito do artista, uma vez que a composição, como um todo, sem o comprometimento com a representação figurativa, era "arbitrária", ou seja, o resultado possível a partir dos elementos postos em jogo. Na verdade, a arte construtiva buscou tornar necessário o que era casual.
No polo oposto a essa arte, situou-se a arte informal ou tachismo, cuja manifestação mais radical terá sido a "pintura cega", como a do italiano Vêdova, por exemplo.
    No entanto, pela despreocupação total com a construção da obra, esse procedimento tentou eliminar a relação dialética entre ordem e desordem, previsibilidade e imprevisibilidade, perdendo-se assim a noção de obra, em que sempre intervém a opção do autor: o acaso criaria a obra, mas é a intervenção do artista que faz dela expressão humana, mesmo porque o puro acaso, assim como a natureza, que produz galáxias, não produz arte.
    Esta, por maior que seja o grau de acaso que a constitua, é sempre resultado da intervenção do artista. Mesmo Pollock -que, dançando sobre a tela posta no chão, deixava cair sobre ela respingos de tinta que constituiriam a obra- intervinha, depois, para corrigir o que o acaso criara errado.
Da Folha de S. Paulo

Paul McCartney abre turnê na AL em Porto Alegre

Ex-Beatle faz shows ainda em Buenos Aires e São Paulo
    De volta ao Brasil após 17 anos desde sua última visita, Paul McCartney sobe neste domingo (7) ao palco do estádio Beira Rio, em Porto Alegre, para o primeiro show de uma curta turnê no país. A expectativa é de que 50 mil pessoas assistam à apresentação, que já está com os ingressos esgotados.
    Os portões abrem às 17h30. Não haverá atração de abertura, já que a apresentação da dupla Kleiton & Kledir foi cancelada. McCartney está previsto para subir ao palco às 21h. A previsão para a noite de domingo, segundo o Tempo Agora, é de céu com poucas nuvens, sem chuva. A temperatura deve ficar em 19ºC, com sensação térmica de 9ºC e umidade relativa de 59%.
    Está liberado o uso de máquinas fotográficas que não sejam profissionais e bebidas não-alcoólicas em garrafas pet de até 500 ml. Não é permitido entrar com comida, bebida alcoólica, correntes e capacentes de moto, guarda-chuva, fogos de artifício, objetos de metal, vidro, cortantes e pontiagudos, entorpecentes, remédios fora da embalagem original e animais de estimação.
    A organização do evento vai disponibilizar uma caixa em cada entrada do estádio para que os fãs depositem ali seus presentes para Paul McCartney. Após o show, o material será levado para o ex-Beatle. Segundo a produção, este procedimento é padrão em todas as apresentações do músico.
    Desde seu lançamento, em março, a nova temporada da turnê "Up and Coming" já foi vista por mais de 500 mil pessoas nos últimos meses. No Brasil, os shows seguirão o mesmo repertório, composto por cerca de 36 músicas que somam aproximadamente 2h30 de duração. A banda que acompanha Paul no palco é: Paul Wickens no teclado, Brain Ray no baixo e guitarra, Rusty Anderson na guitarra, e Abe Laboriel Jr na bateria.
    Serão mais de 200 mil watts de som para o show na capital gaúcha. O palco montado no Beira Rio tem altura equivalente a um prédio de oito andares e, durante o espetáculo, serão usados dois painéis laterais e um painel led de fundo. Após o final do evento, serão necessários quatro dias para desmontar todo o palco e carregar as carretas.
Em São Paulo
    Depois da capital gaúcha, o ex-Beatle viaja para Buenos Aires, onde toca nos dias 10 e 11, e após o show argentino volta ao país para tocar em São Paulo nos dias 21 e 22 deste mês de novembro, no estádio do Morumbi. Os ingressos também estão esgotados para as duas datas, que devem receber 60 mil pessoas cada dia.
    O canal pago Multishow terá os direitos de transmissão da apresentação de McCartney no dia 21, em São Paulo. No mesmo dia, a emissora vai exibir uma programação especial sobre o músico, com apresentações históricas, bastidores e clipes.
    A turnê "Up and Coming" teve seu início em março deste ano e já passou pela Europa e América do Norte. Os shows costumam ter 3 horas de duração, com músicas de todas as fases da carreira solo do cantor, incluindo diversas canções dos Beatles e do Wings.
Repertório da turnê "Up and Coming":
"Venus and Mars/Rock Show"
"Jet"
"All My Loving"
"Letting Go"
"Got to Get You Into My Life" ou "Drive My Car"
"Highway"
"Let Me Roll It/ Foxy Lady"
"The Long and Winding Road"
"Nineteen Hundred and Eighty-Five"
"(I Want to) Come Home" ou "Let 'Em In"
"My Love"
"I'm Looking Through You" ou "I've Just Seen A Face"
"Two of Us" ou "And I Love Her"
"Blackbird"
"Here Today"
"Dance Tonight"
"Mrs Vandebilt"
"Eleanor Rigby"
"Ram On"
"Something"
"Sing the Changes"
"Band on the Run"
"Ob-La-Di, Ob-La-Da"
"Back in the U.S.S.R."
"I've Got a Feeling"
"Paperback Writer"
"A Day in the Life/Give Peace a Chance"
"Let It Be"
"Live and Let Die"
"Hey Jude"
"Day Tripper"
"Lady Madonna"
"Get Back"
"Yesterday"
"Helter Skelter"
"Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band/The End"

No Painel da Folha de S. Paulo

Cabeça feita. Reeleito ao senado, Edison Lobão (PMDB-MA) diz a quem quiser ouvir que não aventa a hipótese de presidir a Casa. Quer, isso sim, voltar a ser ministro de Minas e Energia.

O de sempre. Mesmo porque José Sarney (PMDB-AP), depois de mais uyma vez espalhar que estaria muito cansado e sem disposição para um novo mandato na presidência do Senado, começa a deixar claro que prentende continuar onde está.

Dos 2.085 servidores da Assembleia Legislativa do Maranhão, apenas 16 são concursados

Aline Louise
    A “Casa do Povo” do Maranhão não é tão popular assim. Para ocupar um dos 2.085 cargos na Assembleia Legislativa do estado há, hoje, duas opções: candidatar-se a uma das 42 vagas de deputado estadual daqui a quatro anos ou passar a fazer parte do corpo de funcionários a partir de indicação. Do total de servidores da Casa, apenas 16 passaram por concurso público. Outros 471 são efetivos e 1.553 são nomeados pelo presidente da Assembleia, podendo também ser indicados por outros parlamentares.
    Os 487 servidores fixos da Casa, entre concursados e efetivos (que prestavam serviço antes de 1983), compõem menos de 25% do total. Os outros 1.553 funcionários podem ser mudados conforme a vontade dos parlamentares. São diretores, assessores parlamentares, cargos de confiança e colaboradores nas funções burocráticas do parlamento. Todas elas são nomeadas pelo presidente da Casa e, algumas delas, indicadas pelos deputados para trabalhos dos próprios gabinetes.
    Cada deputado tem direito a 19 assessores para auxiliá-los. Os parlamentares que compõem a Mesa Diretora podem ter até cinco funcionários a mais à disposição, já que, além dos trabalhos como parlamentares, possuem funções de administração da Casa. Hoje, o presidente da AL tem no próprio gabinete um total de 32 auxiliares no exercício da função.
    Sobre o baixo número de concursados na Casa, o atual presidente Marcelo Tavares (PSB) diz que não é possível abrir novo concurso público até o próximo ano devido à Lei de Responsabilidade Fiscal. Desde 2008, a folha de pagamento do parlamento maranhense passa por uma reformulação devido à aprovação do Plano de Cargos, Carreiras e Salários, que reajusta o salário dos servidores efetivos.
    “A Casa não tem condições de realizar um concurso público este ano, assim como não o tem desde 2008 por causa da aprovação do Plano de Cargos, Carreiras e Salários. Se nós abríssemos um concurso agora, passaríamos do limite prudencial e legal estabelecido pela Lei de Responsabilidade Fiscal, já que um funcionário concursado recebe mais que um comissionado,” justificou Marcelo. Para ele, o próximo dirigente da Casa poderá abrir concurso público sem problema com a legislação, pois o orçamento já não teria o reajuste do PCCS, a ser finalizado em abril de 2011.
Salários
    Dos 16 concursados, nove são consultores legislativos. Cada um deles tem salário inicial de R$ 8 mil e, com o passar dos anos, podem alcançar R$ 14 mil em valores atuais. Até hoje, a Assembleia Legislativa realizou apenas um concurso público, em 2005, no qual foram admitidos 40 funcionários. Destes, 24 deixaram de exercer a função.
    Este ano, a média mensal de gastos com pagamento de pessoal na Assembleia é de R$ 9 milhões. A média de salários dos cargos comissionados varia entre R$ 1 mil e R$ 12 mil — o maior valor pago é destinado aos diretores da Casa e assessores parlamentares (um por gabinete). A Assembleia possui, hoje, 12 diretores e 42 assessores parlamentares.
    O salário bruto recebido por cada deputado é de R$ 12.264. Mas o valor total recebido no exercício da função é bem maior. Entre gratificações e auxílios, o parlamentar recebe, por exemplo, R$ 17.894,67 para compra de material de gabinete, R$15 mil para exercício parlamentar, R$ 1.631,25 de auxílio moradia e R$ 1.050 para o plano de saúde. Além destes valores, os deputados maranhenses recebem um adicional em dezembro e em fevereiro de cada ano, as chamadas “verbas de saída e de entrada”, que possuem o mesmo valor do salário inicial, cada.
De O Imparcialonline

Monteiro Lobato no tribunal literário

Aldo Rebelo
    O parecer do Conselho Nacional de Educação (CNE) de que o livro "Caçadas de Pedrinho" deve ser proibido nas escolas públicas, ou ao menos estigmatizado com o ferrão do racismo, instala no Brasil um tribunal literário.
    A obra de Monteiro Lobato, publicada em 1933, virou ré por denúncia -é esta a palavra do processo legal-de um cidadão de Brasília, e a Câmara de Educação Básica do Conselho opinou por sua exclusão do Programa Nacional Biblioteca na Escola.
    Na melhor das hipóteses, a editora deverá incluir uma "nota explicativa" nas passagens incriminadas de "preconceitos, estereótipos ou doutrinações". O Conselho recomenda que entrem no índex "todas as obras literárias que se encontrem em situação semelhante".
    Se o disparate prosperar, nenhuma grande obra será lida por nossos estudantes, a não ser que aguilhoada pela restrição da "nota explicativa" -a começar da Bíblia, com suas numerosas passagens acerca da "submissão da mulher", e dos livros de José de Alencar, Machado de Assis e Graciliano Ramos; dos de Nelson Rodrigues, nem se fale. Em todos cintilam trechos politicamente incorretos.
    Incapaz de perceber a camada imaginária que se interpõe entre autor e personagem, o Conselho vê em "Caçadas de Pedrinho" preconceito de cor na passagem em que Tia Nastácia, construída por Lobato como topo da bondade humana e da sabedoria popular, é supostamente discriminada pela desbocada boneca Emília, "torneirinha de asneiras", nas palavras do próprio autor: "É guerra, e guerra das boas".
    Não vai escapar ninguém -nem Tia Nastácia, que tem carne negra". Escapou aos censores que, ao final do livro, exatamente no fecho de ouro, Tia Nastácia se adianta e impede Dona Benta de se alojar no carrinho puxado pelo rinoceronte: "Tenha paciência -dizia a boa criatura. Agora chegou minha vez. Negro também é gente, sinhá...".
    Não seria difícil a um intérprete minimamente atento observar que a personagem projeta a igualdade do ser humano a partir da consciência de sua cor. A maior extravagância literária de Monteiro Lobato foi o Jeca Tatu, pincelado no livro "Urupês", de 1918, como infamante retrato do brasileiro. Mereceria uma "nota explicativa"?
    Disso encarregou-se, já em 1919, o jurista Rui Barbosa, na plataforma eleitoral "A Questão Social e Política no Brasil", ao interpretar o Jeca de Lobato, "símbolo de preguiça e fatalismo", como a visão que a oligarquia tinha do povo, "a síntese da concepção que têm, da nossa nacionalidade, os homens que a exploram".
    Ou seja, é assim que se faz uma "nota explicativa": iluminando o texto com estudo, reflexão, debate, confronto de ideias, não com censuras de rodapé.
    O caráter pernicioso dessas iniciativas não se esgota no campo literário. Decorre do erro do multiculturalismo, que reivindica a intervenção do Estado para autonomizar culturas, como se fossem minorias oprimidas em pé de guerra com a sociedade nacional.
    Não tem sequer a graça da originalidade, pois é imitação servil dos Estados Unidos, país por séculos institucionalmente racista que hoje procura maquiar sua bipolaridade étnica com ações ditas afirmativas.
    A distorção vem de lá, onde a obra de Mark Twain, abolicionista e anti-imperialista, é vítima dessas revisões ditas politicamente corretas. País mestiço por excelência, o Brasil dispensa a patacoada a que recorrem os que renunciam às lutas transformadoras da sociedade para tomar atalhos retóricos.
    Com conselheiros desse nível, não admira que a educação esteja em situação tão difícil. Ressalvado o heroísmo dos professores, a escola pública se degrada e corre o risco de se tornar uma fonte de obscurantismo sob a orientação desses "guardiões" da cultura.
Da Folha de S.Paulo

Manchetes dos jornais

ATOS & FATOS - Sangue na BR - Juíza maranhense morre tragicamente em desastre
ITAQUI-BACANGA - Jovem é morto com 39 facadas e em seguida jogado dentro de poço
JORNAL EXTRA - Cantanhede: Vereador acusa prefeito Kabão de desviar dinheiro da saúde
JORNAL PEQUENO - 58 assassinatos marcam mês de outubro na grande São Luís
O ESTADO DO MARANHÃO - ZPE de São Luís mudará para o distrito industrial
O IMPARCIAL - Assembleia, paraíso dos comissionados