10 de jul de 2011

Luciano Moreira, o gentil carrasco

Ligia Teixeira
    Passados os primeiros e compreensíveis sentimentos de tristeza pela morte trágica do ex deputado federal Luciano Moreira, acho que já cabe aqui uma avaliação de sua biografia, desprovida do sentimento de consternação que, aliás, só deveria afligir àqueles que eram próximos ao parlamentar. Para mim, a morte é a parte mais natural da vida e acho sinceramente que no caso de Luciano, além de sua família e dos amigos mais próximos, apenas o grupo Sarney deveria lamentar sua partida prematura.
    Luciano Moreira era daqueles a quem chamamos em sociologia política de intelectual orgânico. Esteve entre as dezenas de nomes cooptados pelo grupo Sarney para pensar sistematicamente o modo de perpetuação de poder do oligarca. E não digo isso com mágoa ou ódio no coração, sinceramente. Digo para cumprir o dever que o peso de carregar nas costas a formação de historiadora me impõe.
    A História de Luciano Moreira como carrasco do Maranhão começa com sua nomeação, em 1991, a Secretário de Planejamento Estratégico do então governador Edison Lobão. Moreira veio para o Estado na leva de Cearenses que sabe-se lá por que, o grupo Sarney começou a importar para pensar, administrar e, em alguns casos, até mesmo saquear o Maranhão. Graduado em economia, após a posse de Roseana Sarney em 1995, ocupou cargos essenciais na máquina pública: Planejamento, Ciência e Tecnologia, Administração, Recursos Humanos e Previdência.
    Na onda neoliberal que assolou o país na década de 1990 e aproveitando-se do fato de que na época o funcionalismo não era produto do mérito do concurso, mas resultado de um instrumento constitucional que efetivou centenas de milhares de apadrinhados contratados até outubro de 1983, Luciano Moreira comandou uma máquina perversa de perseguição aos funcionários públicos estaduais. Usando como pretexto uma necessária reforma administrativa do estado, desmontou secretarias, investiu pesado na extinção de órgãos e criou o famigerado Programa de Demissão Voluntária dos Servidores, o que na prática resumia-se a chantagear e coagir os funcionários. Entre 1995 e 1999, a burocracia estatal entrou em colapso, incertezas e perseguições marcavam o cotidiano nas repartições públicas do Maranhão. Foi um caos generalizado. Alguns servidores entraram em depressão, outros se suicidaram e houve quem tivesse morrido lentamente na máquina de moer gente construída por Luciano Moreira para “reformar” o Estado. Com a extinção de órgãos, alguns servidores, sentindo-se deslocados e desprestigiados, se viram obrigados a aderir ao programa de demissão “voluntária”, recebendo em troca uma merreca de gratificação. Outros, acuados pela perseguição do Secretário, definharam em órgãos com excesso de pessoal e ausência de estrutura mínima para o exercício das atividades.
    O caos na máquina pública acabou por comprometer a já combalida prestação de serviços do governo à comunidade, deixando servidores em meio ao fogo cruzado do desprestígio profissional e da insatisfação popular. E o pior: Na prática, a tão propalada reforma administrativa não serviu para nada além de conturbar ainda mais as contas públicas.
    Luciano Moreira, o Secretário de fala mansa e gestos comedidos, destruiu famílias, sonhos, projetos de vida e sobretudo ajudou a retroceder administrativamente o Maranhão.
    Desculpem os que acham que este depoimento fere a memória do recém falecido, mas não acho que suprimir posts fazendo-lhe críticas e acusações, como fez o blogueiro Gilberto Léda, seja sinal de respeito à sua memória. Ao contrário, serve apenas como prova de que esse pessoal do Sarney usa a hipocrisia como método de convivência
    Luciano Moreira tentou apagar o passado de desgraças que cometeu contra o povo, lançando ano passado um livro intitulado Reforma do Estado e Cidadania (Editora Contexto ISAE/FGV, 2010). Um libelo mentiroso e cínico que visa mascarar o fato de que sua passagem pela administração pública do Maranhão foi na verdade uma catástrofe.
    Se há uma lição que a morte deveria ensinar é a de que aqueles que partem, deixam como legado mais importante, aquilo que fizeram em vida. Em vida Luciano pode ter sido bom pai, bom marido, bom amigo, bom aliado do Sarneyzismo, mas como homem público foi uma lástima para milhares de filhos do Maranhão.
No mais, Rest In Peace.

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