5 de set de 2011

Zé de Riba: o sal e o som do criador que se refugiou em Sorocaba

Maíra Fernandes
Parceiro de nomes como André Abujamra, Chico César, Zeca Baleiro e Céu, o compositor está morando na cidade, onde também se dedica à culinária

    É só jogar o nome do cantor, compositor, escritor, instrumentista e ator maranhense Zé de Riba, de 53 anos, no Google para encontrá-lo virtualmente em citações e sites tão diversos como em blogs autorais, no site do economista Luís Nassif ou mesmo como verbete no dicionário online Cravo Albin de Música Brasileira. Nesses locais, aqueles que desconhecem o nome e a figura do artista, têm acesso a informações do trabalho de Zé de Riba, que já teve duas de suas músicas gravadas pela cantora Simone e é parceiro de nomes conhecidos como André Abujamra, Chico César e Zeca Baleiro. Ele acaba de lançar seu segundo álbum "Não tenho culpa se você não sabe sambar", que conta com participação da cantora Céu, uma das brasileiras mais festejas internacionalmente.
    Mas se há certa facilidade no mundo do "www", para o sorocabano essa distância é muito mais facilitada e menos virtual. Isso porque, há pouco tempo, o artista escolheu a cidade para aportar, atrás de "paz" para o espírito, "proteção" para sua criação e a dedicação a uma de suas paixões: a culinária. Zé de Riba, além das composições musicais, está à frente do fogão em um empreendimento lançado recentemente: uma cozinha industrial que serve marmitex em Sorocaba.
    "Depois de 30 anos viajando pelo Brasil e pelo mundo, casando e terminando casamento, fazendo filhos e sem tempo, tem uma hora que é preciso mudar. Também pelo momento de mudanças do País, do mundo, das tecnologias... Eu, como artista, precisava refletir sobre tudo isso para fazer o meu trabalho. Mas, no fim, nem ficava perto da família e nem concretizava certas ideias. Agora aqui em Sorocaba esse momento me deu essa estrutura, segurança emocional para fazer os meus trabalhos", explica ele que, em ritmo de criação, ainda lança em 2011 o resultado de 12 anos de pesquisa em cima da obra do pintor russo radicado na frança, Marc Chagall, em parceria com Wolney de Assis, trazendo, em forma de música, a representatividade dos traços do artista plástico.
    "Fui à França, voltei, acompanhei exposições, li livros, invadi a vida de Chagall, dormi com Chagall, tomei café com Chagall, pari o Chagall", conta ele, que aos poucos anda descobrindo Sorocaba. E para além da própria descoberta, os mais atentos sorocabanos também estão descobrindo o ilustre morador, cuja casa ainda serve de paragem para amigos como os músicos Zeca Baleiro e Chico César, quando fazem shows nos arredores.
Com sina e com nome de santo
    Zé de Riba é do Maranhão e traz no nome uma homenagem ao santo mais popular do Estado, José de Ribamar, assim como muitos de seus conterrâneos. "Minha mãe era devota do santo e pôs meu nome, igual a do canhoteiro da copa 78, o Zeca Baleiro e do crápula do Sarney", lembra ele dos maranhenses famosos que também assinam José de Ribamar. Nascido em Dom Pedro - cidade pequena onde o pai, médico, cedia a casa para os artistas que se apresentavam por lá - Zé de Riba "caiu" cedo no mundo.
    Um certo dia, quando tinha 12 anos, subiu pela primera vez em um palco munido de um pandeiro e tocou qualquer nota ao lado do hóspede de sua casa, ninguém menos do que Jackson do Pandeiro. Foi o começo. "A partir dali, comecei a fazer teatro e meu pai me mandou para Brasília, onde me infiltrei com músicos. Depois fui para o Canadá, voltei e a música foi acontecendo, tomando conta. Mas trabalhei com muita coisa como controlador do vôo pois a música tinha que ficar escondida, na época, da família e da ditadura", lembra ele, que escapou de ser médico, profissão de seus irmãos. "Sou filho e irmão de médicos, fui o único que não deu certo lá em casa", brinca ele que, em suas andanças pelo mundo, acabou encontrando outra paixão, a culinária. "Na Europa, fui cozinheiro, aprendi muita coisa, mas minha tia e madrinha já haviam me ensinado a cozinhar", fala ele, que hoje se vale também desse ofício.
A nova rotina: sal e som
    A hora de levantar é por volta das 4h, o trabalho segue até por volta das 14h, horário que se dedica ao filho, um dos responsáveis por essa vinda a Sorocaba. A noite fica para a criação. A rotina não é apenas de um pai e artista dos palcos, mas também de um artista da culinária, que há poucas semanas abriu em Sorocaba uma cozinha industrial, onde dedica-se a feitura da comida que serve para marmitex. "A relação entre música e culinária é muito próxima, ou a mesma coisa. Quando pego sal para colocar no arroz, tenho noção do tanto que usarei, já sei o tempero. Quando eu estou compondo também sei qual a pausa, a colcheia, o tom. Quando vou criar a letra, trilha, sei até onde eu vou, até onde ela tem que ficar doce ou salgada, então é essa mesma coisa de bruxo, de alquimia", compara ele, que veio parar em Sorocaba pois a mãe do seu filho tinha os pais residindo aqui.
Do jornal Cruzeiro do Sul

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