8 de set de 2011

Patrimônio às moscas:Turista enfrenta 'via-crúcis' e abandono na capital do Maranhão

Casa perto do Mercado Central, cujas janelas estão vedadas com tijolos
Carolina Costa
Viajar para a cidade de São Luís é exercício de devoção. A capital do Maranhão, que recebe cerca de 2 milhões de turistas anualmente, maltrata aquele que se aventura por suas calçadas históricas.
    De casarios quase ruindo a ruas esburacadas e inseguras, o descaso se torna mais impressionante se lembrarmos que a cidade completa 400 anos daqui a 12 meses, em 8 de setembro de 2012.
    A via-crúcis começa no embarque: preparado para longas horas de voo, não raro com escalas, o turista chega à capital maranhense num aeroporto com instalações improvisadas, consequência de uma obra que começou em março deste ano e não dá sinais de que vá acabar logo.
    Biombos fazem as vezes das paredes e um toldo plástico cobre a sala de embarque, onde as pessoas se apinham sob um calor que facilmente ultrapassa os 30°C nessa época do ano.
    O "devoto" que se arriscar a conhecer o centro histórico verá cenas de ainda maior provação. Boa parte dos casarios dos séculos 18 e 19 está caindo aos pedaços.
    Sem segurança, mal iluminadas e cheias de buracos, as ruas ficaram perigosas.
    Azulejos franceses e portugueses praticamente só são vistos em suvenir -isso se o turista encontrar uma loja aberta no centro, uma vez que o comércio segue o suplício.
"QUE CAIA DE PODRE"
    "Isso aqui está numa desolação de dar pena", comenta Antonio França, pescador e morador da cidade. Segundo ele, muitos casarões são particulares, e os donos não fazem questão de arrumá-los.
    "Fecham portas e janelas e querem que o negócio caia de podre", conta ele.
    A observação não passa despercebida dos turistas. Em viagem com a mulher e o filho, o brasiliense Erasmo Rodrigues Fernandes comenta: "É lamentável que um homem culto e inteligente, nascido aqui, que foi presidente da República. governador e que é presidente do Senado, deixe sua terra natal nessa degradação".
    Dinheiro não falta: o Maranhão lidera a lista de Estados destinados a receber recursos do Ministério do Turismo, pasta nas mãos do maranhense Pedro Novais (PMDB).
    Só de convênios já assinados neste ano, o Estado já foi beneficiado com R$ 22,8 milhões, segundo informa a assessoria de imprensa do Ministério do Turismo.
    Para efeito de comparação, o Rio de Janeiro, sede da Copa do Mundo de 2014, tem R$ 4,3 milhões de recursos em convênios aprovados.
    Com a capital do Estado vivendo um martírio, haja fé para crer que esse dinheiro se converterá em uma cidade mais piedosa com seus moradores e que não mais excomungue seus turistas.

Histórica, São Luís vive período de decadência

A lista de intelectuais ligados a São Luís espelha sua importância cultural.
    A cidade, que hoje faz 399 anos, foi referência na formação de Candido Mendes de Almeida, jurista, historiador e geógrafo que publicou o "Atlas do Império do Brasil" (1868); de Aluísio de Azevedo, autor de "O Mulato" (1881) e de "O Cortiço" (1890); de Graça Aranha, a quem devemos "Canaã" (1902); e de Gonçalves Dias, poeta que publicou "Canção do Exílio" (1843) e um dicionário de língua tupi (1858).
    A única cidade do país fundada por franceses, em 8 de setembro de 1612, foi, ao longo do tempo, invadida por holandeses e retomada pelos portugueses. Foi ainda ameaçada por Thomas Cochrane (1777-1860), o lobo-do-mar britânico que formou a Armada Imperial Brasileira e, depois, ajudou os independentistas na luta contra os lusos.


Estratégica, entre as regiões Norte e Nordeste, a capital onde vivem 1.027.098 pessoas (em 2010, segundo o IBGE) deve o nome à homenagem que os franceses fizeram a Luís 9o, patrono da França e chamado de são Luís, um monarca cujo reinado resultou numa era de conquistas.
    Antes dos invasores franceses, eram os tupinambás que habitavam o local onde São Luís seria edificada. Mas os relatos são inexatos quando estimam entre 200 e 600 os índios que viviam na aldeia de Upaon-Açu à época dessa primeira ocupação.
    A tentativa de colonização da região pela coroa portuguesa data de 1535, à época das capitanias hereditárias.
    Nos anos 1550, malogrou a tentativa de fundar a cidade de Nazaré ­-insucesso creditado à ferocidade dos índios e à dificuldade de acesso.
A "FRANÇA EQUINOCIAL"
    E foi só em 1612 que Daniel de La Touche, o senhor de La Ravardière, ali se estabeleceu com 500 homens para fundar a França Equinocial a mando do rei francês Luís 13. Os franceses logo se aliaram aos índios contra os lusos que vinham do Pernambuco.

    Três anos depois, as tropas portuguesas tomaram a região e, em 1620, Jerônimo de Albuquerque foi nomeado comandante de São Luís.
    Com a chegada de açorianos, prosperaram a plantação de cana e a produção de açúcar e de cachaça. Os índios, que já não eram considerados uma ameaça, foram usados na lavoura.
Em 1641, foi a vez dos holandeses tomarem São Luís com uma esquadra de 18 naus guarnecida por 2.500 homens que a saquearam (nessa época, eles já dominavam Salvador, Recife e Olinda).
    O governador foi feito refém numa cidade cujo porto também escoava outros produtos como tabaco, algodão, couro e farinha de mandioca.
    Os portugueses expulsaram o invasor em 1642, mas as batalhas e emboscadas duraram até 1644.
    A região encontrou paz e prosperidade em 1682, plantando o cacau ao lado da cana-de-açúcar e do tabaco, produtos então produzidos por escravos negros -e que eram exportados para Portugal, à qual a cidade esteve ligada por laços de sangue e por conta da proximidade do continente europeu.
    Nem sempre pacífica, a situação deteriorou na Revolta de Beckman, a primeira que opôs colonos e portugueses.
    Em 1755, a fundação da Companhia Geral de Comércio do Grão-Pará transforma o porto de São Luís.
    Também é no período pombalino em Portugal, de 1755 a 1777, que a capital do Maranhão constrói redes de água e esgoto.
    A Guerra de Independência nos EUA (1775-1783) atinge a produção algodoeira por lá e abre brecha para exportações ao Reino Unido.
    A prosperidade econômica faz surgir, em 1780, a praça do Comércio, onde mercadorias europeias eram negociadas num tempo em que, avessa aos comandos do Rio, São Luís, mais ligada a Lisboa, era a terceira mais populosa cidade, atrás do Rio e de Salvador.

Outro lado: "Investimentos no turismo de São Luís crescem"
    Procurada pela Folha, a Secretaria Municipal de Turismo de São Luís não quis divulgar a verba destinada aos projetos deste ano.
    "Prefiro não comentar sobre valores, mas afirmo que são maiores que os do ano passado e vêm aumentando gradativamente", diz o secretário municipal de turismo da capital maranhense, Liviomar Macatrão Pires Costa.
Uma das casas do centro histórico, em condições precárias, mantém cercas elétricas para evitar invasores
    De acordo com Costa, o investimento do governo no que diz respeito ao turismo da região ainda não chega perto de grandes capitais turísticas, como Fortaleza (CE).
    Ele ressalta, entretanto, que "as parcerias com entidades privadas, "trade" turístico [conjunto que abrange a indústria do setor] e Ministério do Turismo vêm fazendo a diferença para o crescimento turístico da capital".
FUTURO
    Quanto a projetos de revitalização do centro histórico, o secretário destaca a Aliança pelo Centro Histórico, que "monitora e realiza serviços urbanísticos, culturais, funcionais e sociais" em 24 ruas da região.
    Ele explica que a pasta vem trabalhando em uma ação de mobilização dos moradores que habitam o centro e também os comerciantes que trabalham no local.
    "Aumentamos a coleta de lixo das vias, temos garis que trabalham especificamente no local, aguardamos a liberação do Iphan [Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional] para fixação de lixeiras estilizadas e, em breve, teremos caminhões próprios para as ruas", diz.
    Outro projeto, o Cores de São Luís, teria como objetivo restaurar a feira da Praia Grande, considerada o segundo ponto mais visitado na capital do Maranhão. "Além disso, temos uma limpeza especial de alta pressão nos monumentos, vias, ruas, praças e escadarias."
    Quanto às comemorações dos 400 anos da cidade, a serem realizadas em 2012, um comitê estratégico organizador já foi montado.
    Foram definidas quatro frentes de trabalho: marketing, infraestrutura, eventos culturais e educação, cultura, ciência e tecnologia.
    De efetivo, até o momento, só foi realizada uma votação popular para escolher o logotipo da festa, que estampará informativos, medalhas e, também, brindes.
Da Folha de S. Paulo

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