3 de fev de 2011

Sarney manobrou para manter feudo no setor elétrico

Sabem aquela carona estranha que o senador e ex-presidente José Sarney (PMDB-AP) pegou após a posse da presidente Dilma, enfiando-se no avião presidencial que levou Lula de volta a São Paulo?
    Pois bem, há sinais de que Sarney deu um jeito de introduzir na conversa durante o voo discretas, discretíssimas queixas sobre mudanças que Dilma pretende fazer no comando de estatais do setor elétrico.
    Como manda ao velho patrimonialismo que rege o Estado brasileiro, o setor elétrico é há muito tempo “área do Sarney”, que faz e desfaz presidentes e diretores de estatais e, inclusive, ministros de Minas e Energia.
    Essa situação atravessou os governos Itamar Franco (1992-1995), FHC (1995-2003) e Lula (2003-2011). Assim, vale a pena observar nos próximos dias o que se passará com essa eventual troca de comandos.
    A presidente teria combinado com o ministro Edison Lobão – velho menino de recados de Sarney – pelo menos uma mudança de peso: na Eletrobrás, sairia o engenheiro eletricista José Antonio Muniz Lopes Filho, ex-presidente da Chesf e da Eletronorte, e entraria outro engenheiro, Flávio Decat, ex-diretor da própria Eletrobrás e de outras estatais do setor, hoje atuando na iniciativa privada (na Rede Energia, gigante do setor que atua em seis Estados, inclusive os dois maiores, São Paulo e Minas Gerais, e mais de 500 cidades brasileiras).
PODEROSO E MATREIRO, COM TENTÁCULOS POR TODO O PAÍS
    Sempre agradável e simpático pessoalmente, mas poderoso e matreiro — um dos políticos mais importantes do país, em conversa comigo, já o qualificou como “uma enguia”, peixe elétrico de mordida mortal — , Sarney tem poder de fogo para reagir e dar o bote.
    Dispõe de centenas de pessoas de sua confiança, que lhe devem favores, espalhadas em cargos por todo o Estado brasileiro, inclusive em governos estaduais, e uma influência polivalente, com tentáculos que se estendem da Academia Brasileira de Letras, de que é membro, até a Confederação Brasileira de Futebol e passando pelas Forças Armadas.
    Vale lembrar que, teoricamente aliado de FHC, e também como presidente do Senado, infernizou o chantageou o presidente incontáveis vezes, sempre com seu ar sorridente e impassível.
    Agora, será interessante ver a reação de Sarney não apenas em relação à presidente Dilma – não nos esqueçamos de que novamente, pela quarta vez, ele estará presidindo o Senado –, como também para com o ministro Lobão.
    Vamos aguardar, de camarote ainda mais porque, aparentemente, as mexidas da presidente não irão parar na Eletrobrás.
     De todo modo, raposa espertíssima, o ex-presidente, nessa história, como uma espécie de compensação, já passou a perna no PT, que detinha o comando do INSS desde 2003, e lá emplacou o procurador Mauro Hauschild, indicação feita em comum com o senador Renan Calheiros (PMDB-AL), outra flor do orquidário fisiológico peemedebista.
    Embora seja indicação política, Hauschild atende a exigência da presidente Dilma de que os abençoados por parlamentares tenham DNA técnico. Confira o currículo de Hauschild.
De Ricardo Setti, de VEJA

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