30 de abr de 2011

Questão de temperamento

Zuenir Ventura
    O presidente do Senado, José Sarney, classificou como uma "questão de temperamento" a atitude do colega e presidente da Comissão de Educação, Roberto Requião, que arrancou o gravador das mãos de um repórter da Rádio Bandeirantes que lhe perguntou se abriria mão de uma discutível aposentadoria vitalícia de R$24 mil por ter exercido o cargo de governador do Paraná. Depois de apagar a entrevista e ameaçar o jornalista - "Quer apanhar?" - o agressor justificou-se em plenário: "Há momentos em que a indignação é uma virtude como foi a do Cristo ao responder aos vendilhões do templo." Não é a primeira vez que Requião perde a cabeça e sofre um desses surtos de "indignação". Teve tantos que recebeu o apelido de Maria Louca, levando o falecido Orestes Quércia a esclarecer: "Às vezes mais louca do que Maria; às vezes mais Maria do que louca." Requião na Comissão de Educação é uma contradição em termos tão evidente quanto Renan Calheiros no Conselho de Ética.
    Esse padrão de comportamento conhecido como desequilíbrio emocional tem se tornado comum no país, e em alguns casos com sérias consequências. Outro dia mesmo houve o episódio do motorista de Porto Alegre que, num desses destemperos, resolveu passar com seu carro por cima de um grupo de ciclistas que atrapalhava a sua passagem. Está respondendo por 17 tentativas de homicídio triplamente qualificado. Mais modesto, porém, o intempestivo atropelador não teve delírio de grandeza de comparar seu rompante ao de Cristo. Também não se sentiu vítima de bullying da imprensa, como fez o ex-governador. Preferiu se internar numa clínica psiquiátrica, de onde acabou indo para o Presídio Central. Seu advogado disse que "a internação foi o melhor caminho para evitar um (novo) surto".
    Sarney acha que a atitude do seu colega não se caracterizou como "uma agressão à liberdade de imprensa ou de trabalho" (se não é agressão, o que será então? Afago?). Segundo o diagnóstico do presidente do Senado, o gesto colérico se deve ao tal "temperamento" explosivo do paciente, desculpe, do presidente da Comissão de Educação, ou seja, à sua índole ou àquele conjunto de humores que formam nossa personalidade e temperam nossas reações. Se é assim, melhor do que punir ou chamar à atenção o agressor não seria o caso de chamar um psiquiatra? Com todo o respeito. Vai que ele tem um novo acesso de fúria.
    Por falar nisso, tem também o caso da promotora que fez curso de loucura. Há os desequilibrados que querem se passar por normais, e há os que querem se passar por loucos mesmo não sendo. Pelo menos totalmente, porque quem faz um curso desses não regula bem, já é um pouco o que pretende fingir ser.
De O Globo

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