17 de jul de 2011

Esboço de resposta

Cateano Veloso
Vargas, o nosso Perón, não é sequer um nome que comova o coração de pessoas com menos de 60 anos
    Juan Arias, do “El País”, pergunta por que os brasileiros não demonstram indignação pública contra a corrupção, já que o governo Dilma, em seis meses, teve que expulsar dois ministros fortes por evidência de práticas ilícitas. Pensando nos protestos espanhóis contra o sombrio clima político resultante do caos financeiro pós-2008, ele estranha a atual apatia no país das Diretas Já e dos caras-pintadas. Ao ler seu artigo, me lembrei de ter visto e-mails-filipetas convocando encontros semelhantes aos da Puerta del Sol em frente ao Copacabana Palace. Um pequeno grupo de pessoas tentava incitar pelo menos a garotada e os velhinhos descolados da Zona Sul a se manifestarem.
    As notícias são de fato estarrecedoras. Palocci ter caído pela segunda vez em poucos anos e, semanas depois, a cúpula do Ministério dos Transportes ser defenestrada significa que o governo, mais uma vez, se vê obrigado a admitir que não pode sequer tentar negar as acusações gritadas pela imprensa. Ricardo Noblat dissecou o histórico sujo de Pagot — e este passou pelo Congresso com muito lubrificante. Não há quem não saiba que se mantém a tradição de mensaleiros e aloprados. Sendo que Palocci e Nascimento são herança direta do governo Lula.
    Eu começaria a responder a Arias dizendo que as manifestações verdadeiramente populares do Brasil moderno têm em seu DNA a explosão indignada que o suicídio de Getúlio deflagrou: ela era contra o moralismo udenista e a imprensa que o apoiava. Este DNA estava nas Diretas Já, nos caras-pintadas e na passeata dos cem mil de 1968. Não somos a Argentina. E Vargas, o nosso Perón, não é sequer um nome que comova o coração de pessoas com menos de 60 anos. Mas o fim da era Vargas, que FH preconizara,
não se realizou. Está, na melhor das hipóteses, em andamento. Lento. A estrutura mental deixada por Vargas é ainda dominante. Seus conteúdos são na maioria inconscientes, mas têm consequências. Então não pode ser fácil arregimentar gente para protestar contra a frouxidão com que se tratam os crimes de corrupção no país.
    Arias chama a atenção para o fato de que milhões vão a marchas pelos veados, pelo evangelismo e pela maconha. Sim. Mas isso reflete, por um lado, a tendência contemporânea para a compartimentalização de temas ideológicos, e, por outro, a ausência de estímulo para pôr em xeque um governo cujo histórico tem mais a ver com as manifestações pró-Vargas do que com as críticas ao “mar de lama”. Como iniciar um apelo pela internet para uma passeata contra a impunidade de altas autoridades que são exoneradas e logo santificadas pelos mandatários se a web está cheia de blogueiros lutando contra a “imprensa golpista”? Esses movimentos crescem em ambientes estudantis, em rodas de jovens artistas, em papo de trabalhadores sindicalizados, em naves de igrejas. Como imaginar algo assim acontecendo se a UNE é financiada por estatais e os sindicatos estão nos palácios? Em suma: se os formadores de rebelião são hoje todos chapa-branca, como organizar o movimento?
    Claro que essas manifestações espanholas, inspiradas imediatamente no cheiro de jasmim que vem do Oriente, têm caráter sessentista. Como o maio francês e a contracultura americana, elas são mais geracionais do que de classe.
    Odeio esse papo de imprensa golpista. Mas é fato que a imprensa brasileira tem o Estado oligárquico em seu DNA. E eu amo mais Vargas como figura histórica do que seus detratores. Começou copiando Mussolini, terminou assustando as oligarquias. Grosso modo, o conluio de Vargas com Samuel Wainer é algo mais progressista do que os jornais pró-Lacerda que viraram, anos depois, marchas da família com Deus pela liberdade. Nestas, viu-se que a mistura de plutocracia com moralismo católico vulgar é marca genética de nossas movimentações políticas mais antiga e mais resistente do que a que se revelou com a morte de Getúlio. Os blogueiros lulistas enfrentam internautas malucos herdeiros das marchadeiras. Será que todas as tramoias de Lula com os parceiros mais variados são mesmo mais progressistas do que toda e qualquer crítica que se lhe faça? Não creio. Não creio nem que as tramoias de Vargas, por mais estruturadoras do novo Brasil que tenham sido, devessem ser imunes a críticas — nem à época, nem agora. E a superação do estágio em que Vargas nos deixou requer coragem para que sejamos mais exigentes do que pudemos ser até aqui. Zuenir tocou na ferida, quando decidiu ousar não temer o udenismo. Será ele apenas a voz mais refinada da imprensa golpista?
    Jânio de Freitas insiste em que o silêncio sobre empresas, mesmo quando se malham políticos, é sintoma de uma sociedade que resiste a mudanças mais fundas. O que é inegável. Mas nem o carnaval contra os corruptos parece possível orientarse. As mesmas pessoas que estavam na primeira fila da passeata dos cem mil ou no comício das diretas ainda estão na festa da posse de Lula. E o povo iletrado só tem a agradecer.
    Votei em Marina para dizer que o número dos avisados é maior do que se pensa. A contagem dos votos confirmou. Novos critérios. A oposição não pode ser refém de reacionários fanáticos. Se um entrudo antiempresas corruptoras, mesmo com bonecos de Palocci, Dirceu e Nascimento, surgisse de surpresa, seria um sinal de saúde: o esboço de um pós-getulismo progressista, civilizador e moderno, levando o Brasil a dizer ao mundo o que este precisa ouvir.
De O Globo

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