4 de abr de 2011

A beleza morre

João Ewerton Neto
    Mas, o que é a beleza? Certamente não é o que se apregoa nos out-doors e na fala de colunistas sociais e agitadores midiáticos quando querem promover algum evento. Basta olhar as fotografias dessas celebrações, repletas de coroas buxudos, peruas encarquilhadas e jovens de rosto padronizado e anódino para se ter uma idéia do quanto o conceito de beleza vulgarizou-se. “Gente bonita”, eles insistem em propagar. Mas, onde?
    Elizabeth Taylor, atriz britânica morta na semana passada aos setenta e nove anos, construiu o mito de sua formosura numa época em que boniteza não era, como hoje, accessível a todas, nem palavra fácil na boca de todo mundo. Constituiu, com a italiana Sofia Loren e a francesa Brigite Bardot nas décadas de sessenta e setenta, um painel de mulheres sedutoras tão fora do padrão convencional - mesmo no ambiente cinematográfico, tão concorrido - que causa estranheza que, passados tantos anos, pouca gente tenha surgido, capaz de ombrear-lhes em atração, personalidade e estilo. Hoje, de BBBs a jogadores de futebol, de Brunas Surfistinhas a Suzanas Vieiras, todos se consideram bonitos, talvez porque botoxes e aplicações cirúrgicas estão aí mesmo, para fornecer-lhes essa doce ilusão. Como resultado disso, o que se vê, são expressões caricatas de harmonia estética eclipsando-se aqui e ali, enquanto se corrompe o conceito da sedução, justamente porque a beleza verdadeira precisa muito mais que um rosto medianamente bonito e de um corpo sarado, para instalar seu reinado.
    Possivelmente, o mito criado em torno das três aconteceu porque a beleza de cada uma, mesmo visceral, lhes era um adendo ao que representavam além de simplesmente atrizes: mulheres diferenciadas pelo magnetismo, inteligência ou personalidade. (Mesmo Brigite, a menos talentosa das três, personificou, com brilho incomum e, talvez, inconsciente, uma antecipação ao fenômeno Beatles, quando tornou-se o estuário das aspirações libertárias e sexuais de uma juventude feminina, então reprimida. A sua beleza , estonteantemente juvenil foi a arma utilizada para expor o embrião desse tipo de transgressão, que tanto chocou o puritanismo da época.)
    Tão dissociada da beleza unicamente física, por sua vez, estava a beleza de Liz Taylor, que seu eterno apaixonado , o ator Richard Burton , igualmente talentoso e que, como ela, foi indicado ao Oscar pelo filme Quem tem medo de Viginia Wolf? comentou, numa das primeiras vezes em que a viu : “ Ela transmite uma sensação de perigo...É um dos poucos seres seletos que não são atores segundo nossos padrões, mas, quando postos na tela, emanam alguma coisa que, com franqueza, não compreendo...É uma moça bonita, sem dúvida. Tem olhos maravilhosos, queixo duplo, seios excessivamente desenvolvidos e pernas meio curtas”...
    Ora, pernas curtas, seios exagerados e queixo duplo, são aberrações físicas que nada têm a ver com beleza, certo? Mas, ela “Emanava alguma coisa que, com franqueza, não compreendo”...Portanto, o mistério, essencial a qualquer beleza que se preze. Quem diria isso de Gisele Bundchen? Ou de Ivete Sangalo? Ou de Adriane Galisteu e mais de cinqüenta e tantos modelos que se vê todo dia, na tevê, insistentemente paupérrimos, da beleza transitória atual?
    “A beleza é apenas a promessa da felicidade” disse um dia, de forma algo cruel, Montagne. Elizabeth Taylor em algum momento de sua juventude compreendeu isso, o que a fez tornar-se mais bela que tantas e permitiu que sobrevivesse à beleza física: aquela que, simplesmente, morre.

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