15 de jul de 2011

Amigos do Poder

Luiz Garcia
União Nacional dos Estudantes abriu esta semana em Goiânia o seu 52º - congresso. Já está bem velhinha essa instituição que representa os universitários brasileiros: nasceu em 1937 quando o Conselho Nacional dos Estudantes trocou de nome.    Durante grande parte de sua história, a UNE teve pauta dupla. Defendia os interesses naturais dos estudantes principalmente os universitários e fazia política, quase sempre de esquerda. O que era inevitável, principalmente quando os governos eram de centro e de direita, como no caso do regime militar de 1964. Teve papel importante, por exemplo, na famosa passeata dos cem mil no Rio. A marcha ocupou toda a Avenida Rio Branco, da Cinelândia à Candelária. E não faltou quem se juntasse à manifestação sem motivos políticos: aderir à marcha era a forma mais prática, ou a única, de chegar à Praça Mauá.
    No congresso deste ano em Goiás, temos uma UNE politizada como sempre, mas com um perfil raro em sua história: o de uma amiga do governo. O encontro, que deverá custar cerca de R$ 4 milhões, será financiado por entidades como a Petrobras e outras estatais, além do governo estadual e da prefeitura de Goiânia. Não é de se estranhar: a UNE é velha aliada de Lula, que deve aparecer por lá; outro que deve ir é o ministro da Educação, Fernando Haddad. Outros ministros também foram convidados.
    Não é de se estranhar a presença de políticos numa reunião onde deverão estar dez mil jovens eleitores. Mas é fenômeno raro na história política do país que sejam todos, ou quase todos, gente do governo. O apoio financeiro ainda bem que ostensivo dos cofres públicos faz sentido do ponto de vista de quem tem as chaves desses cofres. É um gesto politicamente rentável para os ministros que forem a Goiás e para as autoridades locais.
    Mas a opinião pública perde alguma coisa com isso. Os movimentos jovens costumam ser, nos países democráticos, enfáticos e entusiasmados fiscais dos ocupantes no poder. No Brasil destes dias, não parece que seja bem assim. Uma pena.
De O Globo

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